Portugal no centro do Atlântico digital. Autoestrada de dados ou potência tecnológica?
À primeira vista, a Internet parece não ter território. Os dados circulam entre países e continentes, entram em plataformas alojadas na cloud e regressam aos utilizadores quase instantaneamente.
Contudo, por detrás dessa aparente ausência de fronteiras, existe uma vasta e invisível infraestrutura física: cabos submarinos, redes de fibra terrestre, estações de ancoragem digital, centros de dados, antenas de satélite e pontos onde operadores, plataformas e fornecedores de conteúdos trocam diretamente o tráfego digital e fundamental para o mundo atual.Estando Portugal entre Europa, África e Américas, empresários e companhias ligadas à digitalização e fluxos de dados procuram, no país, ocupar uma posição central.
O país recebe cabos submarinos, prepara novos centros de dados e reforça as ligações ao resto da Europa. Mas a presença dessas infraestruturas deixa uma questão em aberto: Portugal está a tornar-se um centro de decisão e criação de valor na economia digital ou continua sobretudo a disponibilizar território e rotas para dados controlados a partir de outros países?
O tema esteve em debate na terceira edição da Atlantic Convergence, que se realizou em Lisboa entre 29 de setembro e 1 de outubro de 2026. Uma “convergência” que reuniu operadores de redes, cabos, centros de dados, cloud e infraestruturas digitais e que colocou no centro do debate a construção de redes atlânticas sustentáveis, seguras, soberanas e preparadas para a inteligência artificial, num período em que também se fala potenciais riscos e geoestratégias por parte de forças beligerantes e ataques digitais.
Portugal. Da periferia europeia a centro atlântico
No contexto histórico, económico e geográfico, Portugal sempre passou por papéis de importância estratégica. Mas perdeu dominância durante as últimas décadas, sendo a questão geográfica descrita, sobretudo, como periférica. Portugal encontrava-se no extremo ocidental do continente, afastado dos grandes mercados e centros industriais europeus.
Mas a digitalização e necessidade de ancoragem de ”veias comunicativas” coloca outra vez o território como referência e porta de entrada para a Europa, como explicam à RTP três atores responsáveis por empresas ligadas ao sector das comunicações digitais.
“Nesta questão da conectividade, nós não estamos no extremo da Europa, nós estamos no centro da Europa”, afirma Ana Figueiredo. A CEO da MEO considera que Portugal pode funcionar como ponto de triangulação entre a América do Norte, a América do Sul, África e a Europa.
A mesma geografia é valorizada por Philippe Dumont. A EllaLink opera uma rota submarina direta entre a Europa e a América Latina, ligando Portugal ao Brasil sem a tradicional passagem dos dados pela América do Norte. Para este operador, Portugal é “a porta de entrada óbvia” na Europa para parte do tráfego proveniente de África. Uma vantagem que se estende às ligações com a América Latina e, progressivamente, aos fluxos provenientes dos Estados Unidos.
Mas a geografia não constitui, por si só, uma estratégia económica.
“Não basta possuir essa geografia”, resalva Ivo Ivanov. Para o CEO da DE-CIX, a localização precisa de ser acompanhada por políticas de investimento, empresas de cloud, operadores, fornecedores de aplicações, plataformas de interligação e capacidade de inteligência artificial.
Do ponto de vista do CEO da DE-CIX, uma das maiores operadoras mundiais de Internet Exchanges (pontos de troca de tráfego de internet), a localização poderá ser novamente uma vantagem e transformar a ideia de periferia continental num Portugal no centro atlântico, com as infraestruturas e as empresas a determinar o valor que fica no território.
"Nesta questão da conetividade, nós não estamos no extremo da Europa, nós estamos no centro da Europa e somos talvez a porta de entrada também na Europa. Mais do que ser porta de entrada, podemos estar na triangulação entre a América do Norte, a América do Sul e África”.
Cabos submarinos são porta mas não são destino
Os cabos submarinos transportam praticamente a totalidade do tráfego intercontinental de Internet (99 por cento). Em fevereiro de 2026, a Comissão Europeia anunciou uma nova medida para a segurança destas infraestruturas e reservou 347 milhões de euros para projetos estratégicos, sistemas de monitorização e capacidade de reparação.
Cabos submarinos são porta mas não são destino
Os cabos submarinos transportam praticamente a totalidade do tráfego intercontinental de Internet (99 por cento). Em fevereiro de 2026, a Comissão Europeia anunciou uma nova medida para a segurança destas infraestruturas e reservou 347 milhões de euros para projetos estratégicos, sistemas de monitorização e capacidade de reparação.
Com Portugal a receber vários destes sistemas, o país procura reforçar a sua posição como porta atlântica da Europa. No entanto, uma estação de ancoragem - em Sines - apenas permite que os dados cheguem ao território. Não garante que sejam armazenados, trocados, processados ou transformados em serviços no país. Ou seja, seria fundamental a criação de um hub onde residisse um data center.
Ana Figueiredo sublinha que, depois da chegada à costa, é necessário conduzir o tráfego até aos grandes pontos europeus de conetividade.
"Não basta que os cabos amarrem Portugal”, afirma. “Depois temos de os conectar com os principais POP a nível europeu, seja Londres ou Marselha". A MEO diz estar a investir em ligações terrestres transfronteiriças e numa combinação de cabos submarinos, redes terrestres e comunicações por satélite. O objetivo é criar alternativas e evitar que a ligação internacional portuguesa dependa de uma única tecnologia ou rota.
Também Phillipe Dumont apresenta uma ideia semelhante. Portugal poderá tornar-se um hub relevante “desde que desenvolva uma rede por detrás da porta de entrada”.
Essa rede não termina na fibra. Inclui estações de ancoragem, ligações terrestres redundantes, energia, centros de dados, operadores, fornecedores de cloud, plataformas digitais e clientes capazes de justificar a concentração da capacidade.
Em Sines, onde já chegam ligações internacionais e estão projetados
novos cabos e centros de dados, a infraestrutura continua em
construção."Sines precisa de fazer crescer a infraestrutura", afirma o
CEO da EllaLink, que acredita que a região será muito diferente dentro de
cinco anos, mas reconhece que a transformação ainda se encontra numa
fase inicial.
Embora surjam os anúncios da criação de tais infrastruturas, estes não podem ser confundidos com capacidade operacional. Entre o anúncio, o financiamento, o licenciamento, a construção e a entrada em serviço de um cabo ou centro de dados podem passar vários anos, o que pode afastar investidores e abrir portas para a fuga de ativos importantes e cruciais para a valorização nacional nesta área.
“Quando falamos de cabos que trazem tráfego de África, Portugal é a porta de entrada óbvia. A partir daqui, desde que Portugal desenvolva uma rede por detrás dessa porta de entrada, pode tornar-se um hub muito importante.” Um hub começa quando os dados se encontram
Se Philippe Dumont explica como os dados chegam a Portugal, Ivo Ivanov, CEO da DE-CIX, refere que é necessário operar pontos de troca de tráfego, locais físicos e plataformas através dos quais operadores, redes empresariais, fornecedores de conteúdos e serviços de cloud se interligam diretamente. Trocas locais que podem reduzir a distância percorrida pelos dados, melhorar a latência e diminuir a dependência de nós externos.
“Quando falamos de cabos que trazem tráfego de África, Portugal é a porta de entrada óbvia. A partir daqui, desde que Portugal desenvolva uma rede por detrás dessa porta de entrada, pode tornar-se um hub muito importante.” Um hub começa quando os dados se encontram
Se Philippe Dumont explica como os dados chegam a Portugal, Ivo Ivanov, CEO da DE-CIX, refere que é necessário operar pontos de troca de tráfego, locais físicos e plataformas através dos quais operadores, redes empresariais, fornecedores de conteúdos e serviços de cloud se interligam diretamente. Trocas locais que podem reduzir a distância percorrida pelos dados, melhorar a latência e diminuir a dependência de nós externos.
Para Ivanov, um verdadeiro hub digital define-se pela “concentração local de tráfego internacional, regional e nacional”, incluindo os novos fluxos gerados pela cloud e pela inteligência artificial. E Portugal já atraiu cabos e projetos de centros de dados.
Créditos: Science Photo Library via AFP
A próxima etapa, afirma, consiste em agregar os fluxos e permitir que as redes os troquem localmente.
Um processo que se desenvolve em várias etapas:
- os cabos trazem capacidade internacional;
- os centros de dados alojam equipamentos e serviços;
- os operadores instalam redes nesses centros;
- os pontos de troca permitem a interligação direta;
- as plataformas de cloud e conteúdos aproximam-se dos utilizadores;
- a menor latência e a concentração de clientes atraem novas empresas;
- o hub começa a produzir valor para além do transporte de dados.
É nesta fase que Portugal poderá deixar de ser apenas um corredor, pois após a conetividade os dados são trocados, alojados e processados localmente, gerando maior potencial para criar investimento, serviços e emprego qualificado, explicou à RTP Ivo Ivanov.
“A principal definição de um hub digital é a concentração local de tráfego internacional, regional e nacional, incluindo as aplicações que utilizamos hoje e os novos fluxos relacionados com a cloud e com o treino e a inferência da inteligência artificial. A próxima fase consiste em agregar estes fluxos e trocá-los em plataformas como a nossa, para que possam responder localmente. Isso cria gravidade de tráfego IP e transforma o local num verdadeiro hub digital global”. Lisboa, Madrid e Barcelona: concorrentes ou parceiros?
Portugal apresenta já uma mais-valia na amarração dos cabos submarinos à plataforma continental, mas será esse factor suficiente para garantir a sustentabilidade económica e criação de riqueza económica?
Ana Figueiredo, da MEO, acha que não e defende que Portugal deve construir um ecossistema económico, para que os investimentos não terminem no "vizinho ibérico". O receio é que os cabos cheguem à costa portuguesa, mas os grandes centros de dados, os serviços de cloud e o processamento vão parar a Espanha.
Já Philippe Dumont, um instalador das redes de cabos, vê Madrid como parte necessária da continuação terrestre das rotas portuguesas. Segundo o responsável da EllaLink, estão a ser desenvolvidos projetos para aumentar a fibra entre Lisboa e Madrid e, a partir daí, em direção a Paris, Amesterdão e Frankfurt.
Por sua vez, Ivo Ivanov vai mais longe e propõe o conceito de uma "capital digital distribuída", constituída por uma triangulação de hubs entre Lisboa, Madrid e Barcelona.
Na perspetiva do CEO da DE-CIX, as três cidades não formam um único centro urbano, mas um ecossistema interligado. Uma relação competitiva e complementar em que Portugal disputa investimento, centros de dados e empresas com Espanha, mas precisa das redes ibéricas para ganhar escala e chegar aos grandes mercados europeus.
A questão deixa, por isso, de ser apenas saber se Lisboa poderá substituir Madrid ou Frankfurt. Passa a ser determinar que funções da cadeia digital Portugal conseguirá concentrar e controlar dentro de uma rede europeia distribuída.
"Chamo-lhe parte de uma capital digital distribuída na Península Ibérica, constituída pelos hubs digitais de Lisboa, Madrid e Barcelona", sublinha Ivo Ivanov.
Segurança: o risco visível e as ameaças quotidianas
A centralidade atlântica também aumenta a importância da proteção das infraestruturas.
Em fevereiro de 2026, a segunda Cimeira Internacional sobre a Resiliência dos Cabos Submarinos reuniu no Porto participantes de mais de 70 países. A Declaração do Porto recomendou maior cooperação internacional, simplificação dos processos de reparação, melhor monitorização dos riscos, coordenação operacional e investimento na diversidade geográfica das rotas.
A centralidade atlântica também aumenta a importância da proteção das infraestruturas.
Em fevereiro de 2026, a segunda Cimeira Internacional sobre a Resiliência dos Cabos Submarinos reuniu no Porto participantes de mais de 70 países. A Declaração do Porto recomendou maior cooperação internacional, simplificação dos processos de reparação, melhor monitorização dos riscos, coordenação operacional e investimento na diversidade geográfica das rotas.
Poucos dias depois, a Comissão Europeia apresentou uma caixa de ferramentas de segurança e um investimento de 347 milhões de euros, incluindo financiamento destinado ao reforço da capacidade europeia de reparação.
O debate público tem sido dominado pela possibilidade de sabotagem. Philippe Dumont chama a atenção para as causas mais frequentes das interrupções. “Na maioria dos casos, os cabos são cortados por atividades de pesca e de ancoragem”, afirma. Fenómenos naturais, movimentos de sedimentos e outros acidentes marítimos também podem danificar a infraestrutura.
Ainda que classifique estes factores como os mais frequentes, Dumont não exclui a existência de ameaças hostis.
Considera, porém, que concentrar toda a discussão na sabotagem pode fazer esquecer uma questão mais abrangente: os cabos são infraestruturas vitais e têm de ser protegidos contra riscos intencionais, acidentes e fenómenos naturais.
Créditos: AFP
A proteção não depende apenas da vigilância ou da capacidade de reparar um cabo. Começa na existência de caminhos alternativos.
"A primeira forma de resiliência de uma rede é a diversidade", afirma o CEO da EllaLink. Vários cabos que percorrem o mesmo corredor ou chegam à mesma região não representam necessariamente uma rede resiliente. Para criar alternativas reais, é necessário diversificar rotas físicas, pontos de aterragem e jurisdições. “Na maioria dos casos, os cabos são cortados por atividades de pesca e de ancoragem. Esta é a principal causa dos cortes.” “A primeira forma de resiliência de uma rede é a diversidade. Se esses cabos seguirem as mesmas rotas, isso não é resiliência.”
É também esta a lógica seguida pela MEO ao combinar cabos submarinos, fibra terrestre e comunicações por satélite. As tecnologias não desempenham exatamente a mesma função, mas podem reduzir a dependência de um único tipo de ligação.
Investimento: uma infraestrutura paga ao longo de décadas
A construção do hub português depende também do modelo económico das telecomunicações.
Ana Figueiredo considera que o debate público e regulatório se tem concentrado excessivamente no preço pago pelos consumidores. Na perspetiva da CEO da MEO, a pressão sobre as margens pode limitar a capacidade futura dos operadores para investir em fibra, 6G, satélites, cabos submarinos e centros de dados.
Créditos: Science Photo Library via AFP
A responsável defende um equilíbrio entre concorrência, preço, qualidade de serviço e capacidade de financiamento das redes.
“Não são investimentos em que temos um retorno imediato ao final do ano”, afirma.
Segundo Ana Figueiredo, determinados projetos são realizados com horizontes de retorno de dez, 15 ou 20 anos. Se as condições regulatórias forem alteradas durante esse período, aumenta a incerteza dos investidores.
“Quando fazemos um investimento, fazemos um investimento à cabeça e depois procuramos ter o retorno desse investimento ao longo, se calhar, não de cinco anos, mas de dez anos, 15 anos, 20 anos”. Ainda assim, o horizonte a longo prazo é comum às várias partes da infraestrutura digital.
Tal como a CEO da MEO, também Philippe Dumont, da EllaLink, refere que um centro de dados pode levar vários anos a licenciar e construir, mas um cabo submarino pode exigir ainda mais tempo. Entre o projeto inicial e a disponibilidade comercial existe um percurso de financiamento, autorizações, produção, instalação, testes e ligação às redes terrestres.
A transformação de Sines ou de Lisboa não pode, portanto, ser medida apenas pelo número de projetos anunciados. Precisa de ser avaliada pela capacidade que entra efetivamente em funcionamento e pelo grau de utilização dessa infraestrutura.Inteligência artificial: grandes fábricas de dados e processamento próximo dos utilizadores
Se os cabos e os centros de dados já estavam a transformar a geografia digital, a inteligência artificial (IA) aumenta a velocidade e a complexidade do processo.
Os três entrevistados pela RTP consideram que a IA vais obrigatoriamente exigir mais capacidade, segurança e resiliência. Mas é Ivo Ivanov quem introduz a distinção essencial entre treino e inferência.
O treino dos grandes modelos exige centros de dados com milhares de processadores especializados, grande disponibilidade de energia, refrigeração, armazenamento e ligações de fibra de alta capacidade.
Foto: Science Photo Library via AFP
Ivanov descreve esta infraestrutura como “centros de dados gigantes, com muitas unidades de processamento gráfico (GPU), muita energia disponível e grandes ligações por fibra”.
É neste contexto que Sines procura afirmar-se. A disponibilidade territorial, as rotas submarinas e os projetos de centros de dados podem criar condições para receber a computação destinada a Portugal e a mercados externos. E se estas estratégias funcionarem os grandes fornecedores de cloud tendem a construir cabos de elevada capacidade junto dos centros de dados.
“As duas coisas avançam em conjunto”, afirma Philippe Dumont. “Há 20 anos, os cabos submarinos ligavam cidades. Agora ligam centros de dados”. Os cabos já não servem apenas para estabelecer uma ligação entre mercados urbanos. Ligam as instalações onde os dados são armazenados, processados e utilizados para treinar ou executar sistemas de inteligência artificial. E, se a IA é feita de dados, estes vão precisar de vias para chegarem a todo o mundo (centros de dados). As vias são, para já, os cabos submarinos.
É neste contexto que Sines procura afirmar-se. A disponibilidade territorial, as rotas submarinas e os projetos de centros de dados podem criar condições para receber a computação destinada a Portugal e a mercados externos. E se estas estratégias funcionarem os grandes fornecedores de cloud tendem a construir cabos de elevada capacidade junto dos centros de dados.
“As duas coisas avançam em conjunto”, afirma Philippe Dumont. “Há 20 anos, os cabos submarinos ligavam cidades. Agora ligam centros de dados”. Os cabos já não servem apenas para estabelecer uma ligação entre mercados urbanos. Ligam as instalações onde os dados são armazenados, processados e utilizados para treinar ou executar sistemas de inteligência artificial. E, se a IA é feita de dados, estes vão precisar de vias para chegarem a todo o mundo (centros de dados). As vias são, para já, os cabos submarinos.
“Há 20 anos, os cabos submarinos ligavam cidades, Nova Iorque a Paris ou a Londres. Agora já não ligam cidades. Ligam centros de dados”.
Se o treino concentra capacidade, a “conclusão” ou “inferência”, com base em pistas num modelo já treinado, responde a pedidos e executa tarefas, e poderá produzir o movimento contrário.
Para Ivanov, a inferência “exige uma infraestrutura distribuída” e é particularmente sensível à latência (tempo entre dados enviados na origem e chegada). Algumas aplicações precisam de receber dados, processá-los e devolver uma resposta em intervalos muito reduzidos.
É o caso de determinados sistemas industriais, robótica, gestão de redes, aplicações médicas ou veículos autónomos. Nestas situações, enviar todos os dados para um centro remoto pode introduzir atrasos incompatíveis com a operação.
A infraestrutura terá, por isso, de se aproximar dos locais onde a tecnologia é utilizada. Ivanov antecipa a distribuição de fibra, 5G, 5G Advanced, futuro 6G, pontos de troca de tráfego e capacidade computacional pelo território.
Foto: AFP
O CEO da DE-CIX dá como exemplo o sul de Portugal. Aplicações de inferência com exigências muito reduzidas de latência não poderão depender exclusivamente de capacidade localizada em Lisboa.
A IA poderá, assim, produzir duas geografias simultâneas:
- Concentração, através de grandes centros de dados dedicados ao treino e a tarefas computacionais intensivas;
- Distribuição, através de nós de processamento instalados mais perto de empresas, máquinas e utilizadores.
Portugal terá de responder aos dois desafios. Precisa de capacidade internacional e grandes centros de computação, mas também de redes nacionais capazes de levar a infraestrutura digital para além de Lisboa e Sines.
“O treino exige uma capacidade energética gigantesca e ligações de grande capacidade. Estamos a falar de grandes centros de dados, com muitas GPU, muita energia disponível na rede e grandes ligações de fibra”.
IA. revolução tecnológica, segurança e regulação
Neste contexto, em que operadores trabalham diariamente com fluxo de dados, a inteligência artificial não pode ficar à margem. Ana Figueiredo, da MEO, compara mesmo a IA à eletrificação e à expansão da Internet. “Como a energia e a eletrificação, como também a Internet, acho que estamos a viver uma nova revolução tecnológica. A inteligência artificial veio para ficar e, como todas as disrupções tecnológicas, vai acarretar muitas vantagens e pode acarretar também alguns riscos”.
Na perspetiva da responsável, a resposta passa por preparar as redes para o crescimento da procura e assegurar segurança, resiliência, confidencialidade dos dados, capacidade de adaptação das infraestruturas e a utilização da IA dentro das próprias operações das empresas.
Mas há outros campos que são necessários, cada vez mais assegurar, como a implementação de regras nesta nova orgânica digital.
É precisamente neste ponto que Ivanov acrescenta outra dimensão: a regulatória. O CEO da DE-CIX aceita a necessidade de regras relacionadas com a segurança, mas considera também que uma regulação excessiva poderá travar inovações cujas aplicações ainda não são totalmente conhecidas.
Créditos: Reuters
A discussão ultrapassa, porém, o equilíbrio entre regras e inovação. A expansão da IA levanta questões sobre energia, água, concentração empresarial, dependência tecnológica, soberania dos dados e localização da capacidade computacional.
Questões que atores dentro do mercado digital e políticos vão ter de encontrar num cenário cada vez mais concorrencial, mas também mais delicado e com fortes indícios de uma "não descartável" perda de controlo através da aplicação, desenvolvimento e implicação do uso de ferramentas digitais, designadamente a inteligência artificial.
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